16/02/13

A Índia à mesa

De uma maneira geral, sou eu que me encarrego de levar caril para a mesa cá na Pensão Estrelinha. Porém, há dias de sorte, como dizia o cauteleiro até escorregar na casca da banana... (cala-te boca qu'inda sai disparate!). 
Recomeçando: há dias de manhã que um gajo à tarde não devia sair de casa à noite. Mas também há daqueles dias em qu'um gajo trabalha de manhã, vai para a piscina à tarde e regressa a casa à noitinha e ... como que mudou de fuso horário porque se depara na mesa com iguarias às quais nem sequer o Vasco da Gama teve direito quando pôs o pé em terras da Índia. (Dizem as más línguas que foram os Portugueses, com certeza no tempo do Afonso de Albuquerque, que introduziram o caril na Índia e o Tempura no Japão...) Mas adiante.
Metida a chave à porta, os aromas adocicavam o corredor, tudo porque a sócia resolveu deitar mãos à obra e preparar uma refeição daquelas que não se esquecem tão depressa.
Não vou contar pormenores das receitas, mas tão-só limitar-me a contar aquilo que veio para a mesa:
Umas apas 


para acompanharem um Jhinga Mole cozinhado com todo o coração e carinho que se possa imaginar. Apesar da acidez do limão, sentia-se bem o mel que derretia o citrino insinuante.

Para rematar... o doce das sete camadas, aquela sobremesa cujo condimento especial é a paciência.
Uma Bebinka de comer e chorar por mais. 

Tal como sucede com muitas outras iguarias indianas, tanto o Jhinga Mole como a Bebinka ainda estavam melhores no dia seguinte.
Experimentem porque vale bem a pena e, além disso, a gastronomia indiana tem muito para oferecer para lá do conhecido caril
 
 

27/01/13

Patas de pota

Penso que chamam a este tipo de confecção «à lagareiro»; eu fiz à minha maneira: uma embalagem com quatro patas de pota, cozidas durante 40 minutos em panela de pressão com cebola inteira, rolha de cortiça e após devidamente «assustadas». Superstição, ou não, dá sempre bom resultado e é garantia de que os cefalópodes saem sempre macios.
Dez batatinhas a assar no forno, em cama de alho e azeite e temperadas com sal e pimenta-preta. Depois de cozidas, as patas de pota foram fazer companhia às batatinhas durante mais 15 minutos com o forno a 200°C e na função grill.
A única foto que tirei do acontecimento foi a do rótulo deste Chardonnay made in USA/Califórnia que acompanhou o repasto.
Apesar de algo distantes do sabor de um bom polvo, as patas de pota recomendam-se, o mesmo não se poderá dizer em relação ao vinho, demasiado afeminado e facilmente superado por uma garrafa de BSE, João Pires ou Loios branco. O melhor mesmo, seria um verde minhoto, melhor ainda de produção artesanal. Mas esse recebi-o de um Amigo, daqueles que não imaginamos encontrar na Internet e que existem mesmo! Um destes dias eu posto aqui uma foto do rótulo só para fazer pirraça!

 

Pato no forno

Afazeres, preguiça e falta de motivo que o justifique, têm sido estes alguns dos motivos pelos quais não tenho vindo à Casa de Pasto. É evidente que não é por isto que deixo de levar comidinha à mesa cá do pessoal da Pensão Estrelinha, mas nada que justifique uma postagem simplesmente para marcar presença.
Esta sobremesa já aqui marcou presença, mas desta vez o coulis de frutos silvestres saiu de tal maneira bom que não resisto a deixar aqui a foto


No entanto, naquilo que toca a encher barrigas e a contentar o pessoal, uma das mais recentes experiências foi um pato assado no forno que saiu – modéstia à parte – de comer e chorar por mais.
Antes de partir à aventura, consultei algumas receitas na Internet e desconfiei de todas: atirar com o pato (partido em quatro ou inteirinho da silva, temperado com isto ou com aquilo) sem com mais nada para dentro do forno, foi coisa que não me convenceu. Por isso mesmo, achei por bem dar uma boa cozedura ao pato durante 45 minutos. Perfumei a água com 3 cravinhos (cravo-cabecinha ou cravo-da-índia... o que lhe quiserem chamar) e boa pitada de sal. Enquanto o patito estava na sauna, piquei-o por várias vezes com um garfo. A casa quase ficou perfumada com aquele aroma do Arroz de Pato que a sócia faz e que é, sem dúvida, o melhor do Mundo e arredores. Mas continuemos:
O pato vinha acompanhado por umas moelas de bom tamanho e por um pescoço que mais parecia o de um avestruz anão. Olhei para tais miudezas e decidi logo que não podia desperdiçá-las. Assim, cozia-as previamente durante quase uma hora, só com uma pitada de sal e reservei; ou melhor, escondi e já vão saber porquê.
Entretanto, o pato acabou de cozer, ou seja, achei que a carne estava macia à picadela do garfo. Assadeira com cama de cebola cortada em rodelas finas, uma concha de água da cozedura do pato, o dito cujo lá para dentro, sal, pimenta-preta moída na altura, dois dentes de alho laminados e sumo de um limão para cortar as gordurezas. Forno a 200°C e vamos aguardar o desenrolar dos acontecimentos.
Numa frigideira de barro deitei um generoso fio de azeite e um dente de alho bem picado, juntei as moelas e o pescoço, temperei com pimenta-preta, levei a lume brando e deixei que ganhassem sabor. Depois disso, cortei, retalhei, procedi a um verdadeiro trabalho de nanotecnologia no que diz respeito às moelas (ainda é possível ver vestígios das mesmas na fotografia do arroz; mas, por favor, não digam nada a ninguém), pois cá em casa o pessoal recusa-se a degustar tal iguaria! (recusava-se, digo eu...) O mais aborrecido de tudo foi esfiapar o pescoço do pato, mas com uma faca de corte bem afiada, o trabalho resultou bem. 
Um tacho com bom fio de azeite, cebola e alho bem picadinhos, tudo ao lume até ficarem quase transparentes, um copo de vinho branco seco e o arroz lá para dentro, bem envolvido e sempre controlado para não pegar. Logo de seguida, as micro-moelas e os suculentos pedacinhos de carne do pescoço do pato mais umas oito conchas de água de cozer o pato e uma cenoura cortada em brunoise. Quando o arroz começou a abrir, rectifiquei temperos, tirei do lume e passei para o forno, a fim de fazer companhia ao pato. 
Quando levei o arroz ao forno virei o pato e aproveitei para o picar mais umas quantas vezes, ao mesmo tempo que o reguei com o caldo. Na fase final, mudei o forno para a função grill e o resultado não podia ter sido melhor. Nos últimos 15 minutos a pele do pato tostou, ficou crocante, estaladiça e o arroz ganhou uma capa seca e suculenta. 
Resultado: a carne do pato tão macia que quase se desfazia na boa, a pele estaladiça de pôr as miúdas a dizer: «Oh mãe, tu dizes para não se comer a pele, mas esta está deliciosa!» E o arroz de miúdos desapareceu, tal como o pato.
Ficam as fotografias para aguçar o paladar


 
 

 
    

15/01/13

Papel de alumínio

Diga-se de passagem, que não costumo utilizar muito, mas de vez em quando faz falta. Ora, o dito cujo papel de alumínio tem os seus truques. 
Vejamos:
Na verdade, usar os dois lados do papel é correcto. Porém, nas duas formas, há utilidades diferentes. O lado brilhante do papel alumínio, por exemplo, reflecte melhor tanto no calor como em temperatura baixa. Para congelar os alimentos é aconselhável manter o lado brilhante para fora, pois se o frigorífico for aberto, o papel de alumínio reflectirá melhor o calor, mantendo mais tempo o alimento congelado. No caso de cozinhar os alimentos, você deve inverter e manter o lado brilhante para dentro. Neste processo, faz com que os alimentos cozinhem mais rápido.

09/01/13

Folhado de bacalhau com puré de grão

O chef Luís Baena foi meu colega no Liceu Gil Vicente. Apesar de nunca termos sido da mesma turma, convivíamos nos mesmos grupos que se formavam depois das aulas ou durante as baldas...
E agora, passados tantos anos, dei por mim a fazer uma coisa da qual nunca fui adepto: o copianço. O Baena que me perdoe, mas desta vez não resisti. A receita estava ali escarrapachada na página do suplemento da Sábado, acompanhada por uma fotografia daquelas que fazem logo crescer água na boca. O resultado foi este Folhado de bacalhau (a que o chef deu o nome de Mil-folhas) que saiu delicioso, apesar de algo trabalhoso (sobretudo porque o bacalhau se mostrou renitente em colaborar e teimou em demorar a lascar mais do que o previsto).

Ingredientes para duas pessoas:
2 postas de bacalhau demolhado
6 quadrados de massa folhada
1 lata pequena de grão
5 tomate-cereja
salsa
azeite
flor de sal e pimenta-preta q/b 

Para o copianço não ser assim tão descarado, «esqueci» a vinagreta de salsa.

Grão ao lume até se desfazer facilmente com um garfo.
Bacalhau regado com generoso fio de azeite para dentro do forno a 180°C. 
Quadrados de massa folhada para o forno a 200°C
Desfiz o grão-de-bico com um garfo; envolvi com as lascas de bacalhau; temperei com flor de sal, pimenta-preta moída na altura, salsa e aproveitei ainda o azeite com que tinha regado o bacalhau
Espalhei o preparado sobre Quatro quadrados de massa folhada, que depois sobrepus para formar duas porções. Usei os dois quadrados de massa folhada restantes para cobrir cada uma das porções. Levei outra vez ao forno (ainda quente) cerca de 5 minutos e, por fim, decorei com o tomate-cereja, previamente temperado com flor de sal e azeite.
Acompanhei com salada de alface.
Ficou assim, e recomendo 


 

14/12/12

Moelas de coelho

Eu aprecio uma razoável variedade de interiores internos de uma série de bicharada. Gosto de língua de vaca – infelizmente, cá em casa sou o único –, não dispenso umas boas iscas de vitela (as de porco ponho de lado, ao passo que aproveito sempre o fígado do coelho), delicio-me com uma dobrada, atinjo o Nirvana com uns salmonetes de Setúbal (os verdadeiros, aqueles que nadam entre o rio Sado e o Atlântico, de sabor único e inconfundível) acompanhados pelo molho confeccionado com os fígados dos respectivos peixinhos. 
Não dispenso umas tirinhas de orelha de porco (isto já são interiores externos, mas tudo bem!) no Cozido à Portuguesa e, se estiver para aí virado, também me aventuro ao chispe de porco (outro interior externo...).
Não me falem nem ofereçam rins, rabos (de boi ou de porco), túbaros ou bochechas de porco
Após esta breve classificação de medicina-veterinária interna, vamos ao que interessa: 
Dentro deste leque de vísceras e órgãos correntemente designados por miudezas, existem uns nos quais também ferro o dente se mos põem à frente: moelas de galinha, melhor ainda se forem de pato, desde que não pareçam pastilha elástica e estejam bem cozinhadas.
Acontece que um destes dias, o meu amigo Samuel, do talho Só Qualidade me disse que moelas mesmo boas são as de coelho!
Já estou farto de procurar e não consigo encontrar as ditas cujas moelas de coelho. Será que algum dos leitores deste humilde blog me sabe dizer onde consigo adquirir tal iguaria? 

Mas que raio andamos nós, Portugueses, a comer?

«Os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE) demonstram que o Pingo Doce
(da Jerónimo Martins) e o Modelo Continente (do grupo Sonae) estão entre os maiores importadores
portugueses.»

Porque é que estes dados não me causam admiração? Talvez porque, esta semana, tive a oportunidade de verificar que a zona de frescos dos supermercados parece uns jogos sem fronteiras de pescado e marisco.
Uma ONU do ultra-congelado. Eu explico.
Por alto, vi: camarão do Equador, burrié da Irlanda, perca egípcia, sapateira de Madagáscar, polvo marroquino, berbigão das Fidji, abrótea do Haiti?

Uma pessoa chega a sentir vergonha por haver marisco mais viajado que nós. Eu não tenho vontade de comer uma abrótea que veio do Haiti ou um berbigão que veio das exóticas Fidji. Para mim, tudo o que fica a mais de 2000 km de casa é exótico. Eu sou curioso, tenho vontade de falar com o berbigão, tenho curiosidade de saber como é o país dele, se a água é quente, se tem irmãs, etc.

Vamos lá ver. Uma pessoa vai ao supermercado comprar duas cabeças de pescada, não tem de sentir que não conhece o Mundo. Não é saudável ter inveja de uma gamba. Uma dona de casa vai fazer compras e fica a chorar junto do linguado de Cuba, porque se lembra que foi tão feliz na lua-de-mel em Havana e agora já nem a Badajoz vai. Não se faz. E é desagradável verificar que o tamboril (da Escócia) fez mais quilómetros para ali chegar do que aqueles que vamos fazer durante todo o ano.

Há quem acabe por levar peixe-espada do Quénia só para ter alguém interessante e viajado lá em casa. Eu vi perca egípcia em Telheiras. Fica estranho. Perca egípcia soa a Hercule Poirot e Morte no Nilo. A minha mãe olha para uma perca egípcia e esquece que está num supermercado e imagina-se no Museu do Cairo e esquece-se das compras. Fica ali a sonhar, no gelo, capaz de se constipar.

Deixei para o fim o polvo marroquino. É complicado pedir polvo marroquino, assim às claras. Eu não consigo perguntar: «tem polvo marroquino?», sem olhar à volta a ver se vem lá polícia. «Queria 500 g de polvo marroquino» – tem de ser dito em voz mais baixa e rouca. Acabei por optar por robalo de Chernobyl para o almoço. Não há nada como umas coxinhas de robalo de Chernobyl.

Eu, às vezes penso: «O que não poupávamos se Portugal tivesse mar.»

 
JOÃO QUADROS. NEGÓCIOS ONLINE
(TEXTO ESCRITO EM COMPLETO DESACORDO ORTOGRÁFICO)